terça-feira, agosto 21

Acompanho o mar. Vejo o horizonte passar lentamente na medida em que barco lhe dá adeus. Perco-me olhando as ondas, mas as pessoas fazem o favor de me trazer de volta à realidade. Tenho vontade de me atirar na água. Sinto uma mão no meu ombro, acordando-me de meu sonho. Não sei quem é e, nessas alturas, não estou disposto a me esforçar para tal.

Não sou mais eu, nem sei mais ser eu. Nas águas que passaram vejo meu reflexo, mas não me reconheço. É tempo de mudar. Sou um conceito em evolução: a cada segundo, um novo personagem, um novo eu. Olho para trás e não vejo nada, mas nada significa muita coisa.

Queria me encontrar, entretanto acabei me desencontrando. E me sinto bem assim. Sou todo mundo, não sou ninguém. Sou simplesmente eu, mais um e, ao mesmo tempo, menos um. Novas experiências, novos lugares, novos eus. Por que não?

Olhei ao redor para ver se encontrava você. Nada. Era uma mulher.

- Sonhando acordado? – retirou a mão do meu ombro e esboçou uma risada.

Procurei você novamente. Nada.

- Agora? Espero que não.

sexta-feira, agosto 17

Sentado em um degrau daquela imensa escadaria, observava milhares de pessoas passarem pela calçada. O sol brilhava forte no céu – deveriam ser umas quatro horas. Apesar do frio, gostava do inverno, os dias pareciam mais convidativos, mais movimentados. Fechei minha jaqueta, dei mais uma mordida no meu cachorro-quente e tomei um gole de refrigerante. Algumas pessoas pareciam fazer o mesmo ritual. Aquele momento ali era tudo de que precisava, eram minhas férias. Estava distante do mundo, distante de mim mesmo.

Minha única preocupação passou a ser o fato de ter colocado maionese demais naquele cachorro-quente. Senti-me confortável pela primeira vez sendo mais um na multidão. Esqueci minha busca pela minha própria identidade. Queria comprar um mliagre, estar num cartão postal. Queria ser o cara que fica com a garota e salva o mundo.

Desci as escadas lentamente, admirando o visual. Acabaria voltando ali um dia, ia precisar de férias novamente. Depositei o cartão postal na primeira caixa do correio que encontrei.

Lembra que quando viajávamos sempre mandávamos uma lembrança para o outro? Talvez essa seja minha última lembrança pra você. Sei que você vai rasgá-lo e vai me odiar mais uma vez. “Sinceramente seu”. Aposto que você vai rir.

terça-feira, agosto 14

Devem ser o quê? Seis horas da tarde? Seis e meia, talvez. Caminho pela cidade a escurecer, os carros passam por mim sem rumo algum. Iluminado pelas milhares de luzes urbanas, sinto a noite ficar mais bonita à medida em que se torna mais artificial, eletrônica. Um espetáculo à parte. O vento frio bate contra meu rosto e faz com que me sinta vivo.

O que eu carrego na mochila? Hoje eu não sei. Me sinto mais livre, a mochila pesa menos. Caminho contra os carros e tudo o que sinto é uma nova batida, novas sensações. Me sinto... eletrônico. Eu vou para o lugar de onde os carros voltam, vou na contramão. Hoje eu não sou eu. Não tenho passado, tenho a madrugada. A luz da minha vida, hoje, é feita de neon.

Você dizia que eu não conseguia ver as coisas com clareza, lembra? Espero que sim, porque hoje eu nem sei quem você é.

segunda-feira, agosto 13

Sentado em uma pedra defronte ao mar, deixo as ondas levarem para longe meus pensamentos. O vento frio arrasta a areia próxima à beira da água, poucos metros de onde estou. Na mão, uma garrafa - whisky, talvez. Tomo um último gole, engulo uma última lágrima. O sol se punha como uma longa despedida.

O frio congela vagarosamente cada osso do meu corpo. Nada me passa na cabeça, somente uma vontade de desaparecer, de nunca mais voltar. Levanto, pego minha mochila e atiro a garrafa à areia. Dou uma última olhada para o sol. Um último adeus.
Estou a quilômetros distante de tudo, e quanto mais tentei me encontrar, mais me perdi. Seguro firmemente, com uma mão, a mochila. Dentro dela, tudo o que guardei na vida: esperança, desejo e mentiras. Não queria uma chance de recomeçar, mas uma oportunidade de acabar tudo, para, finalmente, esquecer o passado. Enquanto isso, continuarei fugindo e acumulando coisas as quais vou querer esquecer também.

Voltei para ver o sol, justamente como você havia dito que eu faria. Na verdade, talvez eu venha ver ondas. E, sabe... nunca me perguntei por quê. Agora sei porque.